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terça-feira, 27 de julho de 2010

FÉ E POLÍTICA -Orientações pastorais do Bispo do Marajó para as eleições 2010

VOTO NÃO TEM PREÇO, TEM CONSEQUÊNCIAS

Diante das eleições, o Bispo do Marajó Dom José Luiz Azcona envia esta carta aos fiéis da Igreja Católica e a todos os marajoaras de boa vontade.
O Bispo e com ele a Igreja, pode e deve em todo momento pregar a fé com autêntica liberdade, “ensinar a doutrina de Cristo sobre a sociedade, realizar sua missão sem impedimento algum e emitir juízo moral, inclusive sobre matérias que se referem à ordem políticas quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas”. (GS 76)

Numa Prelazia como a nossa onde os direitos fundamentais da pessoa são escarnecidos, a dignidade humana é desprezada sistematicamente e o abandono do Estado é quase total, a Igreja, para cumprir adequadamente sua missão em obediência a Cristo, seu único Senhor, trata de oferecer luz para a formação da consciência no exercício do direito a voto nas próximas eleições.

Esta carta, é portando, aplicação do evangelho à nossa realidade marajoara no exercício do ministério episcopal recebido de Jesus Cristo.

A moral constitui uma dimensão essencial da evangelização. O tempo das eleições é um momento específico para mantermos a coerência ética necessária para com os ditames e a voz da consciência. Sem essa coerência ética, especialmente no momento das eleições, perdemos nossa identidade cristã e agimos como se Deus não existisse. É o mesmo que a Deus com os fatos.
Numa palavra, votar de modo imoral é uma ofensa gravíssima contra Deus com impactos de morte no homem, na sociedade e especialmente nos pobres. De modo particular no Marajó, abandonado pelas autoridades brasileiras.

No Marajó, sobretudo neste processo lento de miserabilidade, esse pecado é especialmente odioso, denuncia uma perversão grave da consciência ética e uma profunda perda dos sentimentos humanos.

“O cristão que não cumpre suas obrigações temporais, falta aos seus deveres para com o próximo, falta sobretudo, às próprias obrigações para com Deus” (GS 43). “Que me importa a mim o meu irmão?” repetia Caim depois do assassinato de Abel.

“VOTO NÃO TEM PREÇO, TEM CONSEQUÊNCIA”. Assim como não tem preço a vida humana, sua dignidade, sua condição de imagem e semelhança de Deus, e por isso não se pode vender nem comprar homens nem mulheres, assim tampouco se pode comprar nem vender o voto, do qual depende o emprego, a alimentação, a alfabetização, numa palavra, a dignidade e a vida humana. Por isso é um crime hediondo, injustificável, crime contra a humanidade.

A IV Assembléia do Povo de Deus deste ano detectou uma situação de grave inclinação para o abismo da sociedade marajoara cada dia mais acelerada a nível social e ético num processo até agora irreversível. “Não temos “aliados”, se repetia, estamos sozinhos”.

Neste sentido as eleições deste ano supõem um exercício de cidadania e de consciência ética e cristã especialmente crítico. O objetivo geral da ação pastoral da Igreja no Marajó nos lembra a necessidade de “a luz do novo pentecostes resgatar a dignidade do Marajó num esforço constante por uma libertação integral do mesmo para construir um povo justo e fraterno”.

A terceira prioridade pastoral da mesma Assembléia do Povo de Deus do Marajó, nos lembra “a ação sócio-política” da Prelazia do Marajó. As eleições devem ser o termômetro para medir nossa fidelidade à essa Assembléia e nela ao Espírito Santo.

Nosso Estado, ausente por completo do Marajó e das suas cousas repete hoje o abandono secular da nossa região marajoara. Fazendo encalhar e se opondo à implementação do Plano de Desenvolvimento Integral do Marajó, aprovado pela presidência da nação e pelo Estado do Pará, este se tornou de fato inimigo do povo marajoara.

O Estado, substituindo este Plano pelo “Território de cidadania”, mostrou grave desrespeito para com a identidade marajoara e com meras atuações locais e pontuais esqueceu Marajó como todo e o despojou cinicamente do seu desenvolvimento global e integral.

Por outra parte, o descaso tradicional de Deputados e Senadores marajoaras para com os interesses, aspirações e lutas do nosso povo de Marajó até o presente, tira toda confiabilidade neles na hora de decidir o voto.

A IV Assembléia do Povo de Deus excluiu com toda evidência e repetidas vezes como candidatos possíveis, aqueles de procedência protestante. Já nas anteriores eleições o Bispo do Marajó assumia um posicionamento claramente negativo com relação aos candidatos evangélicos ou protestantes depois de uma experiência confirmada sem exceções em que a autoridade protestante no Marajó, marginaliza sistematicamente as comunidades católicas, não governa em nome da cidadania, mas em virtude do preconceito de seita, em contra diretamente do espírito e a letra da Constituição brasileira, em injusta identificação prática entre interesse econômico e político de determinada seita com o Reino de Deus.

De modo orientativo a IV Assembléia do Povo de Deus do Marajó, afirmou que o voto deve ser dado a católicos “ética e profissionalmente idôneos”, é dizer, que apresentem um comportamento moral digno e estejam profissionalmente preparados.

Dos candidatos se deverá exigir um posicionamento claro contra o aborto, matrimônio de gays e adoção de crianças por estes. Sabemos que, por exemplo o ‘PT’ e o ‘PV’ são partidos que defendem no seu Estatuto a implantação do aborto no Brasil.

A mobilização e articulação das Comissões de Justiça e Paz, nas paróquias se impõe para impedir o vandalismo eleitoral que impera no Marajó. Talvez possamos dar algum treinamento específico a estas Comissões Paroquiais.

Tudo isso entra no objetivo e prioridade terceira da IV Assembléia. Cada Paróquia deverá concretizar este objetivo com ocasião sobretudo das eleições.

Chegou a hora de se posicionar abertamente contra corruptos e políticos instalados, de um modo ou de outro inimigos do Marajó e do seu desenvolvimento integral. Um bom marajoara não foge a luta.

É hora de oração, de oração intensa pela fidelidade pessoal à própria consciência. Também pelas nossas autoridades: “Antes de tudo se façam pedidos, orações, súplicas e ações de graça por todos os homens, pelos reis e por todos os que detêm a autoridade a fim de que levemos uma vida calma e serena, com toda piedade e dignidade” (Cfr.1 Timóteo 2,1-2).

Com minha benção episcopal.
Soure, 03 de julho de 2010.

†Dom José Luiz Azcona
Bispo Prelado do Marajó

(PEDIDO: Dom José Luiz pede a todos os Padres e Freis da Prelazia do Marajó, que leiam esta carta o quanto antes da Missa, que seja estudado o texto em reunião explicita do CPP de cada Paróquia, que cada Paróquia por meio de "folder, resumo, material apropriado" fazer chegar a todas as Comunidades, especialmente as do interior.